No universo da Perícia Digital, especialmente na extração forense de dados de dispositivos móveis realizada com ferramentas da Cellebrite, muitos profissionais tratam o arquivo UFDR como se ele representasse toda a extração realizada em um telefone celular. Entretanto, essa interpretação pode limitar a análise técnica da evidência digital.

O UFDR apresenta uma representação estruturada e interpretada dos dados extraídos. Dessa forma, o arquivo facilita a visualização e a análise dos artefatos por meio de ferramentas compatíveis, como o Cellebrite Reader. Por outro lado, o UFD, quando acompanhado do respectivo arquivo ZIP, integra uma estrutura relacionada aos dados da aquisição e aos mecanismos utilizados para sua autenticação.

Além disso, o UFD possui características próprias dentro dessa estrutura. O arquivo apresenta, em geral, tamanho reduzido e conteúdo textual protegido por uma camada de segurança. Ao mesmo tempo, o arquivo ZIP associado concentra os dados relacionados à aquisição forense.

Por isso, a diferença entre UFDR e UFD vai muito além da extensão do arquivo. Na prática, cada formato desempenha uma função distinta dentro do processo de análise forense.

Enquanto o UFDR facilita a visualização e interpretação dos resultados, o conjunto UFD + ZIP permite trabalhar com uma estrutura relacionada à aquisição e verificar sua autenticidade por meio dos mecanismos próprios da Cellebrite.

Assim, o acesso somente ao UFDR pode limitar determinadas verificações técnicas. Em contrapartida, o acesso ao conjunto da extração amplia as possibilidades de análise, autenticação e investigação dos dados digitais.


UFDR: A camada interpretada da extração

O UFDR (Universal Forensic Data Report) integra o ecossistema Cellebrite e apresenta os resultados de uma extração forense em uma estrutura organizada e interpretável. Por isso, o formato facilita a consulta e a análise dos dados pelo examinador.

Com o Cellebrite Reader, o examinador consegue consultar diferentes categorias de informações extraídas, como:

  • Mensagens;
  • Contatos;
  • Registros de chamadas;
  • Fotografias;
  • Vídeos;
  • Aplicativos;
  • Dados de localização;
  • Histórico de navegação;
  • Documentos;
  • Dados de aplicativos;
  • Informações do sistema;
  • Outros artefatos digitais identificados durante a extração.

Na prática, o UFDR funciona como uma camada de apresentação e interpretação dos dados forenses. Dessa forma, o arquivo organiza grandes volumes de informações e facilita a localização dos artefatos relevantes para a investigação e para a perícia.

Além disso, o Cellebrite Reader permite ao examinador navegar pelos resultados sem precisar trabalhar diretamente com toda a estrutura da aquisição original. Entretanto, essa facilidade de consulta não significa que o UFDR, isoladamente, contenha ou represente todo o conteúdo bruto produzido durante a aquisição forense.

Portanto, o examinador deve diferenciar a visualização dos resultados da análise da estrutura original da aquisição. Essa distinção torna-se especialmente importante quando a perícia precisa avaliar autenticidade, integridade, completude ou metodologia da extração.

É justamente nesse ponto que surge a importância do UFD.


UFD: Muito além de um simples arquivo em texto

O UFD possui características diferentes do UFDR. Além disso, o examinador precisa compreender sua função dentro da estrutura da extração forense.

Em determinadas estruturas de aquisição da Cellebrite, o arquivo com extensão .UFD apresenta tamanho bastante reduzido, frequentemente próximo de 1 KB, e contém informações em formato essencialmente textual. Entretanto, uma camada de proteção acompanha essa estrutura e desempenha papel importante no processo de autenticação da aquisição.

Além do arquivo UFD, a estrutura deve incluir um arquivo associado com extensão .ZIP, que concentra os dados relacionados à aquisição. Por isso, o examinador não deve analisar o arquivo .UFD de forma isolada. Na prática, a compreensão adequada exige a análise do conjunto de arquivos que compõe a aquisição.

De forma simplificada, podemos representar essa estrutura da seguinte maneira:

EXTRAÇÃO FORENSE
│
├── arquivo.UFD
│   ├── informações da aquisição
│   ├── estrutura de controle
│   └── elementos de autenticação
│
└── arquivo.ZIP
    └── dados associados à aquisição
        ├── arquivos
        ├── bancos de dados
        ├── imagens
        ├── artefatos
        └── demais elementos extraídos

Dessa forma, o arquivo UFD não representa simplesmente um pequeno arquivo de aproximadamente 1 KB. Pelo contrário, ele integra uma estrutura maior e exerce função relevante no controle e na autenticação da aquisição.

Além disso, o arquivo ZIP associado pode concentrar uma quantidade significativa de dados da extração. Consequentemente, descartar esse arquivo ou analisá-lo apenas como um ZIP convencional pode limitar o exame pericial.

Portanto, o examinador deve preservar e analisar o conjunto original da aquisição sempre que o objetivo exigir uma avaliação mais aprofundada da autenticidade, integridade e estrutura dos dados extraídos.


HMAC: O elemento fundamental para autenticação

Um dos pontos mais importantes para compreender tecnicamente essa estrutura envolve a assinatura HMAC (Hash-based Message Authentication Code). Esse mecanismo criptográfico utiliza uma chave para autenticar dados e verificar a correspondência entre o conteúdo analisado e os dados originalmente produzidos no processo de aquisição.

No contexto da extração forense, o ecossistema Cellebrite utiliza mecanismos de autenticação que permitem ao examinador verificar a consistência e a autenticidade dos elementos associados à aquisição. Dessa forma, o exame não se limita à simples abertura ou visualização dos arquivos.

Em termos simplificados, podemos representar esse processo da seguinte maneira:

Extração → geração da estrutura protegida → autenticação → armazenamento → posterior verificação

Além disso, o Cellebrite Physical Analyzer permite ao examinador realizar a autenticação da estrutura da aquisição e verificar a assinatura HMAC associada aos dados. Consequentemente, essa etapa fornece um mecanismo técnico relevante para avaliar a autenticidade e a integridade da estrutura examinada.

Por isso, a análise do UFD e de seu arquivo associado não deve considerar apenas a existência dos dados. É necessário também verificar os mecanismos que permitem demonstrar que esses dados correspondem à estrutura originalmente produzida durante a aquisição forense.


UFDR x UFD: Qual é a principal diferença?

A comparação pode ser resumida da seguinte maneira:

CaracterísticaUFDRUFD + ZIP
NaturezaRelatório/estrutura interpretadaEstrutura da aquisição
Finalidade principalVisualização e análisePreservação/acesso à estrutura da extração
ConteúdoDados organizados e interpretadosDados associados à aquisição, incluindo elementos brutos
TamanhoPode ser significativamente maiorUFD pode ter aproximadamente 1 KB + arquivo associado
InterpretaçãoAltaDepende da estrutura e ferramenta Cellebrite
Dados brutosNão necessariamente representa todo o conjunto brutoArquivo associado pode conter os dados brutos
Autenticação HMACNão é o principal mecanismo percebido pelo usuário na visualizaçãoAssociada à autenticação da estrutura da aquisição
Software típicoCellebrite ReaderCellebrite Physical Analyzer
Finalidade pericialAnálise dos artefatos apresentadosAutenticação e análise da estrutura da aquisição

Essa tabela demonstra por que UFDR e UFD não devem ser tratados como arquivos equivalentes.


Qual software abre o UFDR?

O arquivo UFDR integra o ecossistema Cellebrite e o Cellebrite Reader consegue abrir e interpretar esse formato. Dessa forma, terceiros podem visualizar e analisar os resultados de uma extração sem precisar utilizar a mesma infraestrutura empregada durante a aquisição do dispositivo.

Na prática, essa característica facilita o acesso aos resultados da perícia. Por exemplo, uma autoridade policial pode disponibilizar o arquivo UFDR para que um assistente técnico ou perito particular examine os dados apresentados pela ferramenta.

Entretanto, o UFDR apresenta principalmente a camada interpretada da extração. Por isso, o examinador deve diferenciar a consulta aos resultados da análise da estrutura original da aquisição.

Além disso, quando a perícia questiona a autenticidade, a integridade, a completude ou a metodologia empregada na aquisição, o acesso ao UFDR pode não responder sozinho a todas as questões técnicas.

Nesse contexto, o examinador deve avaliar também a disponibilidade da estrutura original da extração, incluindo os arquivos e componentes necessários para realizar as verificações técnicas pertinentes.

Assim, o UFDR oferece uma importante ferramenta de consulta, mas o acesso aos dados interpretados não substitui, necessariamente, o acesso à estrutura original da aquisição forense.


Qual software abre o UFD?

O UFD, por sua própria natureza, não deve ser tratado como um documento convencional que simplesmente será aberto por qualquer aplicativo.

Dentro do ecossistema Cellebrite, sua análise está relacionada ao Physical Analyzer, que possui mecanismos próprios para interpretar e autenticar a estrutura da aquisição.

Nesse contexto, não basta simplesmente abrir o arquivo. É necessário que o conjunto da extração esteja preservado. Isso inclui, conforme o caso, o arquivo .UFD e seu respectivo arquivo associado .ZIP. A ausência de qualquer componente pode impedir ou comprometer a validação adequada da estrutura.


Por que o ZIP é tão importante?

Aqui está um dos pontos mais importantes para compreender a diferença entre UFDR e UFD.

Imagine que uma investigação disponibilize somente:

celular_01.ufdr

Nesse caso, o examinador consegue visualizar os artefatos apresentados pelo Cellebrite Reader. Assim, ele pode consultar mensagens, contatos, imagens, registros de chamadas, localizações e outros dados processados pela ferramenta.

Agora, considere um segundo cenário, no qual a investigação disponibiliza:

celular_01.ufd
celular_01.zip

Nesse caso, o examinador acessa uma estrutura diferente da extração. Além disso, o conjunto fornece os componentes necessários para que o Cellebrite Physical Analyzer interprete a aquisição e realize as verificações de autenticidade correspondentes.

Por esse motivo, o ZIP não representa simplesmente um arquivo compactado comum que o examinador pode desconsiderar. Na prática, ele concentra uma parte significativa dos dados associados à aquisição forense.

Além disso, o examinador pode utilizar diferentes ferramentas de computação forense para processar, indexar, pesquisar e correlacionar os artefatos presentes nessa estrutura.

O Cellebrite Physical Analyzer interpreta a estrutura da aquisição e permite realizar a autenticação correspondente, inclusive por meio dos mecanismos de proteção empregados pela plataforma. Dessa forma, o examinador consegue verificar elementos importantes da estrutura antes de iniciar análises complementares.

Por outro lado, ferramentas como o Magnet AXIOM permitem processar e correlacionar diferentes artefatos digitais. Da mesma maneira, o IPED (Indexador e Processador de Evidências Digitais) permite indexar grandes volumes de dados e realizar pesquisas sobre os artefatos encontrados.

Consequentemente, o examinador pode utilizar diferentes ferramentas para ampliar a análise da extração. Essa abordagem também permite comparar resultados entre plataformas e identificar artefatos que merecem investigação mais aprofundada.

Portanto, o conteúdo do ZIP não funciona apenas como um repositório de arquivos. Ele constitui uma fonte relevante de dados forenses e amplia as possibilidades de processamento, indexação, pesquisa e análise independente da extração.


UFDR não é sinônimo de “extração completa”

Esse talvez seja o ponto central deste artigo. É comum que pessoas não familiarizadas com perícia digital pensem:

“Recebi o UFDR, portanto recebi a extração do celular.”

Tecnicamente, essa afirmação pode ser simplista. O UFDR representa uma forma estruturada de disponibilização e interpretação dos resultados. O conjunto original da aquisição pode conter informações e estruturas que não estão necessariamente representadas da mesma maneira no relatório.

Por isso, em uma análise técnica independente, é importante distinguir:

aquisição → dados da aquisição → processamento → interpretação → relatório

Essas são etapas diferentes.


A importância da preservação do conjunto original

Em uma perspectiva de Cadeia de Custódia da Prova Digital, quanto mais próximo da origem estiver o material disponibilizado ao examinador, maior tende a ser a possibilidade de realizar verificações independentes sobre sua estrutura.

Isso não significa que todo UFDR seja inválido ou imprestável. Muito pelo contrário. O UFDR pode ser extremamente útil para:

  • Localizar artefatos;
  • Pesquisar mensagens;
  • Identificar contatos;
  • Reconstruir eventos;
  • Analisar fotografias;
  • Examinar aplicativos;
  • Produzir relatórios;
  • Realizar triagem pericial.

A questão é outra:

Qual é o nível de verificabilidade que se pretende alcançar?

Para uma análise exploratória, o UFDR pode ser suficiente.

Para uma análise destinada a questionar a própria aquisição, autenticidade ou metodologia empregada, o acesso à estrutura original da extração pode assumir importância muito maior.


O UFDR é a ponta do iceberg

A melhor analogia talvez seja justamente a de um iceberg.

O UFDR é aquilo que conseguimos visualizar com facilidade.

Ele apresenta:

          UFDR
    ─────────────────
      DADOS VISÍVEIS
      ESTRUTURADOS
      INTERPRETADOS

Porém, abaixo dessa camada existe uma estrutura muito maior:

             UFDR
              ▲
              │
══════════════╪══════════════
              │
              ▼
      ESTRUTURA DA EXTRAÇÃO
              │
              ▼
             UFD
              │
              ▼
       ARQUIVO ASSOCIADO
             ZIP
              │
              ▼
       DADOS DA AQUISIÇÃO
              │
              ▼
      ARTEFATOS E ESTRUTURAS
              │
              ▼
       AUTENTICAÇÃO HMAC

Por isso, UFDR é apenas a ponta do iceberg.

Ele é extremamente importante, mas não deve ser confundido automaticamente com toda a estrutura da aquisição forense.


Qual arquivo deve ser solicitado em uma perícia?

A resposta depende do objetivo do exame.

Se o objetivo é simplesmente consultar os dados apresentados pela ferramenta, o UFDR pode ser suficiente para determinadas análises.

Entretanto, se o objetivo é realizar uma análise pericial independente, especialmente quando existem questionamentos sobre:

  • Integridade;
  • Autenticidade;
  • Metodologia;
  • Limitações da extração;
  • Cadeia de custódia;
  • Origem dos artefatos;
  • Possibilidade de reprodução do exame;

É tecnicamente recomendável avaliar a possibilidade de acesso ao conjunto original da extração, incluindo os elementos necessários para sua autenticação e interpretação. Em estruturas nas quais a aquisição é composta por UFD + ZIP, a disponibilização apenas de um relatório UFDR pode representar uma redução significativa do material originalmente produzido na aquisição.


Quadro prático para advogados e assistentes técnicos

Para profissionais do Direito, uma pergunta simples pode ajudar:

Foi disponibilizado apenas o UFDR?

Então é importante verificar:

1. Qual foi o método de extração?

2. Qual versão do UFED foi utilizada?

3. Existe a extração original?

4. Existe arquivo UFD?

5. Existe o ZIP associado?

6. A estrutura original pode ser autenticada no Physical Analyzer?

7. A assinatura HMAC foi validada?

8. Existem limitações registradas durante a aquisição?

9. O UFDR contém todos os dados relevantes ou somente os artefatos processados/exportados?

10. É possível reproduzir ou auditar tecnicamente os resultados apresentados?

Essas perguntas podem transformar uma simples análise documental em uma verdadeira análise técnico-forense da prova digital.


Conclusão

A diferença entre UFDR e UFD vai muito além da extensão do arquivo.

O UFDR representa uma importante camada de interpretação e apresentação dos resultados, sendo especialmente útil para consulta e análise por meio do Cellebrite Reader.

Já a estrutura UFD + ZIP está relacionada ao conjunto da aquisição e aos dados associados à extração, sendo o UFD um arquivo de pequena dimensão que contém informações protegidas e mecanismos relacionados à autenticação, enquanto o arquivo associado pode concentrar os dados da aquisição.

Nesse contexto, a assinatura HMAC e sua autenticação no Cellebrite Physical Analyzer assumem especial importância para a verificação da estrutura e autenticidade da aquisição.

Portanto:

UFDR permite visualizar.
UFD + ZIP permite investigar a estrutura da aquisição.

E essa diferença pode ser decisiva quando o objetivo não é simplesmente ver o que a ferramenta apresentou, mas verificar como aquele dado foi obtido, preservado e se a estrutura da aquisição pode ser autenticada.

Na perícia digital, essa distinção é fundamental.

O UFDR pode ser a ponta do iceberg. Mas, para compreender verdadeiramente a prova digital, é necessário olhar o que existe abaixo da superfície.


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